
Existe uma coisa verdadeira que o Budo nos ensina... Nenhum homem foi feito para ser super-homem... Fato é, que ele nos auxilia a nos tornarmos homens melhores.
Existem determinadas coisas que... Acontecem na vida... E nos tornam melhores...
São acontecimentos fortuitos, bem como acontecimentos decorrentes de nossa exposição voluntária. O Budo antes de mais nada nos serve de auxílio a uma reflexão tanto presente, como passada (keiko).
Não me cansaria a dizer a importância que devemos dar aos ensinamentos dos Mestres. Temos verdadeiramente que refletir sobre o conteúdo de seus ensinos para que possamos compreender a nossa própria natureza e a de outros.
Por vezes pensamos que pelo muito treinar estaremos aptos a qualquer situação... Pode ser que sim e pode ser que não, mas de qualquer maneira existe uma consciência que temos que ter: ninguém é super-homem.
O que quero dizer, desbancando algumas falácias, todo o ser humano está sujeito a alterações de acordo com suas experiências. Normalmente estas alterações se processam de forma muito silenciosa, sem que nos apercebamos.
Pessoas existem que afirmam que desenvolveram uma casca grossa para enfrentar todas as situações e não se apercebem que a casca grossa já virou uma ferida... E mais um pouco que ela abra espaço, terminará acamada em um leito de hospital ou gastando os tubos com medicamentos e médicos...
O motivo que isto ocorre é claro: esta pessoa foi além de seus limites e não fez a devida reflexão sobre sua vida que demandava por mudanças.
Sei que existem coisas difíceis aqui de serem trabalhadas: família, trabalho, exigências da vida que exaurem pouco a pouco, devido à exposição continuada, as forças do grande super-homem existente...
Assim a prática nos leva a refletir e o Budo aponta que estes conflitos devem ser antevistos e imediatamente se buscar por soluções, pois nestes casos é a exposição continuada que leva a deficiência.
A solução não é simples, mas seus efeitos benéficos não podem ser negligenciados. Se você está há anos dentro de um emprego que não te satisfaz, que te tira o sono, você deve procurar pela mudança. Se existem problemas familiares, você tem que refletir sobre o seu grau de participação, quem sabe culpabilidade e não medir esforços para transformações. Se existem exigências que não cessam de te abater você tem que diminuir seu grau de exposição a estas exigências.
Em todas estas coisas temos, tal como num Kumitê, procurar pela abertura, pela oportunidade e não desprezar quanto esta aparecer, pois não somente o futuro está em movimento como também o presente.
E tudo se altera quando você altera. Refletir sobre o passado, aprender com as experiências, buscar por sabedoria, ainda por mais sabedoria (quando nos achamos muito sábios), conservar a transmissão de ensinos, respeitar a sapiência e a necessidade dos mais velhos (incluem-se principalmente os anciãos tais como nossos pais) e no mundo hodierno, viver Zanchin. Tudo isto é Keiko.
Desistir é importante, pois ao desistir as amarras são soltas e tudo se liberta. A vida pode ser levada em um ritmo de descontração e simplicidade. Então o que se quer, paradoxalmente já se faz presente.
TÃO RÁPIDO QUANTO POSSA, TIRE A PEDRA DE MINHA MÃO...
Mais de 30 anos atrás ouvíamos esta frase na introdução do seriado "Kung-fu" da televisão. E depois prosseguia assim:
"...quando você puder tirar a pedra da minha mão então será a hora de você partir"
Quais seriam os significados disto? Com certeza muitos.
Mas hoje gostaria de olhar para esta situação sob um ângulo diferente, onde o Budo é aplicado. Mais exatamente mostrando o On e o Giri.
É a história de quatro Mestres e um aluno.
O primeiro Mestre, chamado de Grande Mestre ensinou o caminho à um discípulo por muitos anos e este se tornou um praticante de grande renome, formando dois outros discípulos, um Instrutor em terras distantes e um Instrutor que foi levado a presença do Grande Mestre para continuar os estudos e com ele permanecer.
O tempo passou e o Grande Mestre morreu e após isto o praticante renomado seguiu um caminho muito diferente. Por outro lado, o discípulo que havia conhecido e treinado com o Grande Mestre, optou por permanecer no caminho deste. Assim, o praticante renomado o abandonou.
Nas terras distantes, o Instrutor que ficara sozinho, prosseguiu no caminho, ensinou-o a um aluno mas devido aos reveses da vida, este aluno foi morar em outras terras ainda mais longínquas mas sempre se mantendo no caminho que havia sido instruído. Quando este aluno voltou, procurou por ele e não o achou. Também não achou nenhum de seus antigos amigos. Certo de que tudo havia acabado, que seu Instrutor havia morrido, decidiu continuar a se aprofundar e isto o levou a saber sobre o Grande Mestre que havia morrido.
O destino o levou a presença daquele outro discípulo do praticante renomado, que com compaixão deste aluno solitário, o abraçou como filho, e lhe ensinou tudo sobre o que aprendera e em tudo era instruído. Em confiança foi-lhe dada por missão levar a mensagem do Grande Mestre em suas terras.
Ocorreu que este aluno veio saber após isto, que o Instrutor das terras distantes - que era seu primeiro Instrutor, estava ainda vivo!
Então, ele o procurou novamnte e encontrando-o disse-lhe com alegria que conseguira alcançar êxito na busca pelo Grande Mestre de todos. Contudo esta busca o levara a se unir ao outro discipulo.
Ele também portava um presente da parte dele para o re-encontro.
Na superfície tudo era normal e aparentemente seu primeiro Instrutor soube compreender a situação. Mas o aluno decidiu aguardar um momento propício para dar o presente. E assim o fez.
Quando tinha certeza do momento, ao oferecer o presente, o seu primeiro Instrutor em presença de outros alunos, negou-se a aceitá-lo dizendo que por não conhecer o Instrutor que ficara ao lado do Grande Mestre, não poderia aceitar presente de desconhecido e disse ao aluno:
"- Você está com com o outro Instrutor, volte para ele com o presente."
O aluno baixou a cabeça em sinal de reverência e se retirou.
Ao arrancar este pedra do Mestre, deu-se a hora de sua partida.
Cessou-se On e Giri deste aluno para com ele.
"...quando você puder tirar a pedra da minha mão então será a hora de você partir"
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